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  • Pedro Varela

Vistas da exposição / Installation view - Sobre as águas


Olá todos! Aí vão algumas imagens da exposição Sobre as águas, que está em cartaz na galeria Luciana Caravello até o dia 20 de Fevereiro. A exposição apresenta trabalhos de Giulia Andreani, Amadeo Azar e meus. A curadoria é da Daniela Name e o (lindo) texto da exposição vai logo abaixo!

Amadeo Azar

Giulia Andreani

Pedro Varela

Amadeo Azar

Pedro Varela

Giulia Andreani

Amadeo Azar

FILTROS E INFILTRAÇÕES

Tudo flui como um rio. O aforisma-síntese do pensamento de Heráclito parece

inundar os trabalhos desta exposição, que navega pelas águas de três artistas

litorâneos: a veneziana Giulia Andreani; o argentino Amadeo Azar, nascido em

Mar Del Plata; e o niteroiense Pedro Varela, hoje abrigado pela serra fluminense.

A água foi nascente para muitos diálogos e pontos de contato entre os

trabalhos reunidos aqui. Água como recurso de diluição e de amortecimento de

faturas, tanto nas aquarelas quanto na pintura de pincelada quase transparente,

sutil e propositalmente ambígua. Água como território mole, dobra simbólica,

forma que revolve suas estranhas e revisita a si mesma para ser igual e diversa

a um só tempo, ornamento barroco ou lembrança de origami.

Água que é matéria-prima incontinente, sujeita às flutuações de correntezas,

assim como a memória. Água capaz de gerar infiltrações e esquecimentos,

velaturas, vapores, neblinas. Água que filtro, separando aquilo que importa na

correnteza de imagens do mundo e da história. Água que turva, sugerindo

desaparecimentos e aparições, engolindo o mundo e o regurgitando, numa

constante troca de oferendas. Água como suspensão de fronteiras, passagem

entre mundos. Água que é de todas as cores, mas em nossa imaginação corre

muito azul, gama de tons que é um emblema para a arte – da Turquia a Klein,

da China a Cézanne ou Matisse. Água como inconsciente, imaginação e o colo

poético de uma grande mãe.

Andreani tem alicerçado seu trabalho na pesquisa de imagens históricas. O

conjunto de pinturas que apresenta na mostra se refere ao período que o

escritor Stefan Zweig fugiu do nazismo na Europa para se refugiar no Brasil. A

paleta azulada e cinza reforça a atmosfera simbólica e psicológica que vem

marcando a trajetória da artista, que mistura retratos de personagens reais a

um universo ficcional. A ideia de aparição – imagem exilada de seu mundo e

instável aos olhos – é muito forte.

Azar apresenta uma série de aquarelas e trabalhos tridimensionais que criam

uma espécie de jogo com o gesto construtivo e as formas geométricas. A

noção de intercâmbio e de flutuação da forma está sempre presente, assim

como a de um desenho virtual e elíptico, que tira partido do peso e da natureza

dos materiais e cria planos a partir de dobraduras – as reais e as simbólicas.

Ele revisita Lygia Clark na grande mesa montada na exposição, dialogando

ainda com a memória da arquitetura moderna, tão importante e ambivalente na

América Latina

Varela é de certa forma o encontro destas tantas águas. Primeiro jorro e delta

de nossas correntezas, o artista tem reforçado, em seus trabalhos mais

recentes, a simbiose entre desenho e pintura, que assombra e movimenta sua

obra. A monocromia em azul dá mais visibilidade às referências que

transformam estas paisagens em um mosaico, criado com elementos que vêm

de épocas e territórios muito distintos: seres marinhos que frequentaram cartas

náuticas do século XVI podem habitar o mesmo universo de uma imagem

contemporânea.

Os três navegam em seus próprios veios, mas se transformam em canal e

ponte um para os outros na conversa visual que procuramos estabelecer.

Obras que se tocam em uma deliciosa deriva, que não é naufrágio, e sim

viagem e descoberta. Tudo flui como um Rio. É nessa Babel, ágora de tempos,

culturas e geografias, que esta exposição se banha.

Daniela Name

Filters and infiltration

Everything flows like a river. The aphorism-synthesis of the thought of Heraclitus seems to flood the works in this exhibition, which sails the waters of three coastal artists: the Venetian Giulia Andreani; Argentina Amadeo Azar, born in Mar del Plata; and niteroiense Pedro Varela, today hosted by Rio de Janeiro hills.

The water was rising for many dialogues and points of contact between the assembled work here. Water as dilution feature and damping invoices, both in watercolors and in brushstroke painting almost transparent, subtle and purposely ambiguous. Water as soft territory, symbolic folding, revolving his strange way and revisits herself to be the same and different at the same time, baroque ornament or origami memory.

Water is incontinent raw material streams subject to fluctuations as well as memory. Capable of generating water infiltration and forgetfulness, burnish, vapors, mists. Water filter, separating what matters the stream of images of the world and history. Water blurred, suggesting disappearances and appearances, swallowing and regurgitating the world in a constant exchange of gifts. Water as suspension borders passage between worlds. Water is of all colors, but in our imagination runs very blue, tonal range that is an emblem for art – the Klein Turkey, China Cezanne or Matisse. Water as unconscious, imagination and poetic lap of a great mother.

Andreani has founded his work on historical image search. The set of paintings featuring the show refers to the period that the writer Stefan Zweig fled the Nazis in Europe to take refuge in Brazil. The blue and gray palette reinforces the symbolic and psychological atmosphere that has marked the trajectory of the artist, mixing portraits of real characters in a fictional universe. The idea of appearance – Image exiled from his world and unstable in the eyes – is very strong. Azar presents a series of watercolors and three-dimensional works that create a kind of game with the constructive gesture and geometric shapes. The notion of exchange and fluctuation of form is always present, as well as a virtual and elliptical design that takes advantage of the weight and type of materials and creates plans from folding – the real and the symbolic. He revisits Lygia Clark at the big table-mounted display, still talking with the memory of modern architecture, so important and ambivalent in Latin America.

Varela is somehow the meeting of these much water. First spurt and delta of our streams, the artist has reinforced in her most recent works, the symbiosis between drawing and painting, haunting and moves his work. The monochrome blue gives more visibility to the references that turn these landscapes in a mosaic, created with elements coming from different epochs and territories: marine beings who attended nautical charts of the sixteenth century can inhabit the same universe of a contemporary image.

The three sail on their own shafts, but become canal bridge and one for the other in visual conversation that we seek to establish. Works that touch on a delicious drift, which is not sinking, but travel and discovery. It flows like a river. It is in this Babel, Agora times, cultures and geographies, this exhibition bathing. Daniela Name


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